Vivem lado a lado desde alguns anos, como irmãos em úteros diferentes. Não precisam fazer pactos de amizade como costumam fazer garotos dessa idade, que se lançam com ostentação a rituais ridículos e solenes, dessa forma inconsciente e grotesca. O sentido da amizade está todo ali. Amizade séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. Se fala em voz baixa sobre desconforto e exultante em conquistas e descobertas. Formulam perguntas com calma, mas a voz vibra de curiosidade, como a de um menino que pergunta aos adultos quais os segredos que regem as estrelas e o universo insondável. Das vitaminas que brilham no escuro aos risos dos sorrisos burros e paranóicos dos outros. Aperto de mão e reverência profunda, Mestre. Sempre com aquela falta de vergonha na cara que a gente não quer que nos abandone!
06 abril 2008
Vivem lado a lado desde alguns anos, como irmãos em úteros diferentes. Não precisam fazer pactos de amizade como costumam fazer garotos dessa idade, que se lançam com ostentação a rituais ridículos e solenes, dessa forma inconsciente e grotesca. O sentido da amizade está todo ali. Amizade séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. Se fala em voz baixa sobre desconforto e exultante em conquistas e descobertas. Formulam perguntas com calma, mas a voz vibra de curiosidade, como a de um menino que pergunta aos adultos quais os segredos que regem as estrelas e o universo insondável. Das vitaminas que brilham no escuro aos risos dos sorrisos burros e paranóicos dos outros. Aperto de mão e reverência profunda, Mestre. Sempre com aquela falta de vergonha na cara que a gente não quer que nos abandone!
03 abril 2008

Lay your head where my heart used to be. Hold the earth above me. Lay down in the green grass. Remember when you loved me. Come closer don't be shy. Stand beneath a rainy sky. The moon is over the rise. Think of me as a train goes by. Clear the thistles and brambles. Whistle 'Didn't He Ramble'. Now there's a bubble of me. And it's floating in thee. Stand in the shade of me. Things are now made of me. The weather vane will say... It smells like rain today. God took the stars and he tossed 'em. Can't tell the birds from the blossoms. You'll never be free of me. He'll make a tree from me. Don't say good bye to me. Describe the sky to me. And if the sky falls, mark my words. We'll catch mocking birds. Lay your head where my heart used to be. Hold the earth above me. Lay down in the green grass. Remember when you loved me.
28 maio 2007
24 maio 2007

“Quero acertar tudo”, repetiu mecanicamente.
”O que você quer acertar?”
Olhei-a nos olhos e desatei a rir. Isto tudo não pode mais ser sério!, pensei. Passado algum tempo não é possível “acertar-se” nada entre pessoas. O homem vive e remenda, repara, constrói e depois, por vezes estraga a vida; mas com a passagem do tempo percebe que o todo, que se erigiu daquela forma, a partir de erros e acasos, não é modificável. Ela já não podia fazer mais nada. Quando alguém emerge do passado e anuncia em tom comovido que deseja acertar “tudo”, o propósito só pode suscitar compaixão e riso; o tempo já “acertou” tudo, a seu modo singular. O único possível.
“Olha, também estou contente em te ver. Não falemos do passado. Você não deve nada a ninguém. Não deve nada”, respondi.
Há duas formas de manter os sapatos limpos: transportá-los debaixo do braço ou deixá-los onde estão.
18 maio 2007
08 maio 2007

Aquele que não tem com o que comprar uma ilha
aquele que espera a rainha de sabá na frente de um cinema
aquele que rasga de raiva e desespero sua última camisa
aquele que esconde um dobrão de ouro no sapato furado
aquele que olha nos olhos duros do chantagista
aquele que range os dentes nos carrosséis
aquele que derrama vinho rubro na cama sórdida
aquele que toca fogo em cartas e fotografias
aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
aquele que alimenta os esquilos
aquele que não tem um centavo
aquele que observa
aquele que dá socos na parede
aquele que grita
aquele que bebe
aquele que não faz nada
meu inimigo debruçado sobre o balcão
na cama
em cima do armário
no chão
por toda parte
agachado
olhos fixos em mim
meu irmão
Poema de Hans Magnus Enzensberger
musicado por Arnaldo Antunes no disco Qualquer
17 abril 2007
14 abril 2007

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos. Com esses meros signos, as palavras, que apontam no vazio, como produzir um mundo que se sustente? Como é possível que Stavróguin viva? Seria engano crer que ele tira sua vida de minha imaginação: as palavras geram imagens quando meditamos sobre elas, mas quando leio eu não medito: decifro. Não, não imagino stavróguin: espero por ele, por seus atos, pelo fim de sua aventura. Essa matéria espessa que manipulo quando leio Os Demônios é a minha própria espera, é o meu tempo. Pois um livro não é nada além de um pequeno monte de folhas secas, ou então uma grande forma em movimento: a leitura. Esse movimento, o romancista capta, guia, desvia, faz dele a substância de seus personagens; um romance, seqüência de leituras, de pequenas vidas parasitárias que não duram cada qual mais que uma dança, incha-se, nutre-se com o tempo de seus leitores. Mas para que a duração de minhas impaciências e minhas ingnorâncias se deixe finalmente apanhar, modelar e apresentar a mim na carne dessas criaturas inventadas é preciso que o romancista saiba atraí-la para a sua armadilha; é preciso que esboce, por meio desses signos de que ele dispõe um tempo igual ao meu, em que o futuro não está pronto.
18 março 2007

E isso conserves como chumbo aos pés,
pra mais lento mover-se o teu cansaço
tanto ao sim como ao não que tu não vês,
porque é entre os estultos o mais crasso
quem sem discernimento afirma e nega,
tão como no primeiro, noutro passo.
Que vezes acontece que se apega
a apressada opinião à falsa parte,
e após seu apreço intelecto cega.
Mais que em vão de sua beira se desparte
quem vê, ao voltar, que não lhe corresponde
pescar o vero sem saber sua arte.
E provas disso o mundo não esconde:
Parmênides, Melisso e Bisso postos
a caminhar sem saber para onde;
de Dante Alighieri, A Divina Comédia, Canto XIII, Paraíso
01 março 2007
Então viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem num sentido e nós os narramos em sentido inverso. E, se estas frases tomadas apenas pelo que são, significa que o sujeito está absorto. Mas o fim, que transforma tudo, está sempre presente. Iminência desconfortável. E o relato prossegue às avessas: os instantes deixaram de se empilhar uns sobre os outros ordenadamente, e foram sendo abocanhados pelos entremeios da história - mastigados nervosamente. Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. Ou mesmo, ou quase, que tentar capturar o tempo.
15 fevereiro 2007
Tempo atrás, ganhar a vida era - com o dinheiro único do próprio trabalho - trazer o sustento da família para a casa. Hoje me parece diferente: ganhar a vida é conseguir ter a sua própria vida de volta. Conseguir discernir o que é trabalho e lazer. Tempo para conversar com quem se quer. Ler, caminhar, andar de bicicleta. Tudo isso escrito parece simples. O dia já não cabe mais em vinte e quatro horas. Para quem se pede esse tipo de aumento?
31 janeiro 2007

Passei parte da minha infância sem sair de casa. Por carecer de amigos - muito porque minha mãe não deixava eles visitarem nossa casa a qualquer dia da semana-, minha irmã e eu inventamos dois companheiros imaginários, chamados, não sei por quê, de O Buda e Metro Quadrado. Quando nos cansamos deles, inventamos que eles tinham morrido de asma. Na época eu usava óculos, e eram como eu, um tanto frágeis. Eles foram quebrados várias vezes por meus amigos nas brincadeiras do colégio. Minha mãe decidiu me trocar de escola. Estudei durante quatro anos numa escola adventista de sétimo dia. Li a bíblia três vezes nestes quatro anos. Era obrigado a cantar no coral da escola, todas as terças e quintas por volta das 11h da manhã. Meu pai era quem preparava o lanche: um sanduíche de queijo e salame italiano, envolto em um paninho vermelho dentro de um saco plástico guardados hermeticamente dentro da mochila. Fui apelidado - justamente - de Sanduba. Vinte anos se passaram. Não uso mais óculos. Desaprendi toda cronologia das escrituras. Mas tenho guardado aquele cheiro do pão.
23 janeiro 2007
19 janeiro 2007
17 janeiro 2007

Eu vi a lua na cacunda do cometa vi a zabumba e o fole a zabumbá eu vi o raio quando o céu todo corisca e o triângulo engulindo faiscá vi a galáctea branca na galáctea preta eu vi o dia e a noite se encontrá eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha vi a novilha que é filha da novilhá eu vi a réplica da réplica da bíblia na invenção dum cantador de ciençá vi o cordeiro de deus num ovo vazio fiquei com frio te pedi pra me esquentá
[Tom Zé e Wisnik]

Muitas vezes o que me salvou foi a improvisação. Improvisação, se tem causas, são desconhecidas. E se tem consequências, são imprevisíveis. Mas quando acontecem coisas que coincidem com os meus sonhos de improvisação para com a vida, fico muito feliz. E pareço estar improvisando certo. Thoreau achava que o medo da improvisação era causa da ruína de nossos momentos presentes, e ainda dizia: "É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber." Acho toda essa coisa forte e isso me enche de coragem. Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto vitalidade nas veias. Acho que a salvação é pelo risco. Assim se pode viver melhor. Tudo pode mudar. Que sentido faz o tempo linear, a que tanto nos preocupamos, nesta situação toda?
11 janeiro 2007
09 janeiro 2007

A liberdade é a possibilidade do isolamento. Só és livre se puder te afastar dos homens, sem que te obrigue a procurá-los, sem a necessidade do dinheiro, ou a necessidade forçada do amor, ou a glória, e ainda quando a curiosidade no silêncio e na solidão pode te servir também de alimento. Se for impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas de espírito, todas da alma: és escravo nobre, ou um servo inteligente, mas não és livre. Coitado de ti se a opressão da vida, ela própria, te força a ser escravo. Coitado de ti nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim é a tua tragédia, a que trazes contigo. Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde ser superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força. Talvez a morte é uma libertação porque morrer é não precisar dos outros. Por isso a morte enobrece, veste grandes galas desconhecidas ao pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora talvez não o quisesse ser.
Fecho, cansado, tranco a porta, as janelas, excluo o mundo e em um momento tenho liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha me interromper, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos. Na cadeira, onde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Por um momento.
[Livre adaptação de um trecho do Livro do Desassossego]
03 janeiro 2007
20 dezembro 2006

Num dos livros de memórias com que se deliciava em escandalizar os leitores das décadas de 1930 e 1940, Colette conta a história dos catálogos imaginários compilados por seu amigo Paul Masson, ex-magistrado colonial que trabalhava na Biblioteca Nacional, um excêntrico que pôs fim à própria vida às margens do Reno, tapando as narinas com algodão embebido em éter, perdendo a consciência e depois se afogando nas águas de trinta centímetros de profundidade. Segundo Colette, Masson visitava-a em sua casa à beira-mar e tirava do bolso uma prancheta, uma caneta-tinteiro e um pacotinho de cartões em branco. Um dia ela lhe perguntou:
"O que está fazendo, Paul?"
"Trabalho, coisas do trabalho. Fui nomeado para a seção de catalogação da Biblioteca Nacional, e estou fazendo um levantamento dos títulos."
"E você consegue fazer isso de memória?", ela se admirou.
"De memória? Mas qual seria o mérito? Faço melhor. Constatei que a Nacional é pobre em obras latinas e italianas do século XV. Enquanto o ocaso e a erudição não preenchem as lacunas, eu inscrevo títulos de obras extremamente interessantes, que deveriam ter sido escritas... Assim, ao menos os títulos salvarão o prestígio do catálogo."
"Mas como se os títulos não existem?"
"Mas como se os títulos não existem?"
"Ah", disse ele, com um gesto frívolo, "não posso fazer tudo!"
18 dezembro 2006

"Vou caminhar entre os mortos, tenho de falar baixo. No que me diz respeito, alguns entre os mortos para mim morreram, outros vivem em meus gestos, no formato da minha cabeça, no modo como eu fumo, namoro, e em como às vezes pareço comer certos alimentos a mando deles."
Trecho do livro Confissões de um Burguês, do húngaro Sándor Márai.
12 dezembro 2006

Nas lembranças de cada homem há coisas que ele não revelará para todos, mas apenas para seus amigos. Há outras coisas que ele não revelará mesmo para seus amigos, mas apenas para si próprio, e ainda somente com a promessa de manter segredo. Finalmente, há algumas coisas que um homem teme revelar até para si mesmo, e qualquer homem honesto acumula um número bem considerável de tais coisas. Acho que pode-se dizer, quanto mais respeitável é um homem, mais dessas coisas ele tem.
Chambers, Sándor Márai
11 dezembro 2006
07 dezembro 2006

Schopenhauer fez uso da concepção kantiana do problema estético. Kant imaginava prestar honras à arte, ao dar preferência ao belo, àqueles que constituem a honra do conhecimento: impessoalidade e universalidade. Esse não é o lugar de discutir erros. Talvez seja desnecessário discutir qualquer coisa. A profusão da arte, dilaceração em tom maior, enterrado onde todos os sentimentos que cerceiam os recantos desconhecidos da alma humana está confirmado em língua portuguesa: Irmãos Karamazov já está traduzido diretamente do russo, e será lançado no segundo semestre do ano que vem.
05 dezembro 2006
29 novembro 2006
28 novembro 2006
25 novembro 2006

Há dois modos de avaliar-se o que for belo: por interesse ou por paixão. A paixão, quando acesa de uma vez por todas, não dá lugar a outro interesse. Ela é radical, não quer comparações. A paixão é absoluta. Já o interesse pode ir-se como veio, sem qualquer outra razão maior do que ele mesmo. Prefiro a paixão, é claro, por ser incondicional e única. Tudo que for assim na vida é sempre mais verdadeiro. As minhas paixões me dão resposta integral àquilo que escuto ou que leio. Não vou gostar de uma coisa por me despertar interesse pela outra. Ou gosto ou não gosto. E diz-me então agora: amas, por acaso, alguém? Pois nesse caso o teu amor será o melhor do mundo, se bem não ser por isso que tu amas, quando amas. As outras considerações não valem, a não ser para nos distrair um pouco deste mundo, que, convenhamos, é coisa mais que boa.
03 novembro 2006

Nossos hábitos supõe uma maneira de acontecer das coisas, uma vaga coerência do mundo. Agora a realidade se afigura alterada, irreal. Quando um homem desperta (ou morre), tarda a se desfazer dos terrores do sonho, das preocupações e das manias da vida. Agora me custará perder o costume de encontrar-te tranqüilamente. Assisti, incrédulo, nossa conversa angustiadamente fluente, inevitável. Começo a acreditar, a partir deste fato, que as decisões solenes e definitivas, que traçam o relevante na linha do destino de nossas vidas, são bem menos conscientes do que acreditamos mais tarde, nos momentos de rememoração e lembrança.
30 outubro 2006
27 outubro 2006
14 outubro 2006

O universo de Borges é realmente fascinante. Fazer o leitor, que mais parece um expectador, imaginar a descoberta de um país pela conjunção de dois espelhos e uma enciclopédia, é um deleite literário. Quando começamos a sentir a passagem do tempo, pequenos prazeres como a delicada leitura de Borges, nos faz tão bem! Em meio aos caos da política, o excesso perpetuoso de informações digitais nos aparelhos de tevê, nos computadores, nas rádios e jornais, sentar na sala de casa em silêncio com os escritos deste argentino a quem deu-se o dom da escrita e depois o tirou a visão, é uma atividade de imensurável prazer. É... ficou uma beleza aquele livro lá em casa.
28 setembro 2006
26 setembro 2006

Estou tentando fazer tudo devagar. Caminhar devagar, respirar, ler, ouvir devagar. Exercício de paciência. Muita gente fode com a minha paciência. Abusam meus caros e caras. Falem mais baixo e menos. Sem paciência para escrever aqui, muito atento à Borges, grande mestre das pequenas fantasias, da Argentina aqui pra casa. Música na cabeça, passos calmos. Meditando ao caminhar. Tom Waits disse: você precisa encontrar um lugar para viver! Posso afirmar, razoavelmente que encontrei. Grazie mille!
13 setembro 2006

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes réles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho. Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar. Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho. Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana, que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma covardia! Não, são todos o ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos... Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos, na falta de minhas próprias palavras . Por vergonha. Angústia que transbordou do pote. Este estar entre, este quase... isto.
Álvaro de Campos, na falta de minhas próprias palavras . Por vergonha. Angústia que transbordou do pote. Este estar entre, este quase... isto.
08 setembro 2006

Dois grandes olhos, ouvidos moucos. Eu respondi suas perguntas. Você queria mesmo era ouvir. Ao ouvir minhas respostas, seus olhos me diziam: "Tenho medo de gente e de solidão, tenho medo da vida e medo de morrer, tenho medo de ficar e medo de partir. Tenho medo de correr e medo de cair. Medo de olhar no fundo. Medo de dobrar a esquina. Medo de ficar no escuro. De passar em branco, de cruzar a linha. Medo de se acabar sozinha. De perder a rédea, a pose e o prumo. Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo."
O medo é uma linha que separa o mundo. O medo é uma casa onde ninguém vai. O medo é como um laço que se aperta em nós. O medo é uma força que não nos deixa andar. O medo é uma sombra que o temor não desvia. O medo é uma armadilha que pegou o amor. O medo é uma chave que fez crescer a dor. O sangue que antes era derramado numa paixão, virou tinta vermelha.
07 setembro 2006

Eu não acho mais graça nenhuma nesse ruído constante que fazem as falas das pessoas falando, cochichando e reclamando, o que eles querem mesmo é reclamar, como uma risada na minha orelha, ou como uma abelha, ou qualquer outra coisa pentelha, sobre as vidas alheias, ou como elas são feias, ou como estão cheias de tanto esconderem segredos que todo mundo já sabe, ou se não sabe desconfia. Eu não vou mais ficar ouvindo distraido eles falarem deles e do que eles fariam se fosse com eles e do que eles não fazem de jeito nenhum, como se interessasse a qualquer um. Eles são: As pessoas. As pessoas todas, fora os mudos. Se eles querem falar de mim, de nós, de nós dois, falem longe da minha janela, por favor, se for para falar do meu amor. Eu agora só escuto rádio, vitrola, gravador. Campainha, telefone, secretária eletrônica eu não ouço nunca mais, pelo menos por enquanto. Quem quiser papo comigo tem que calar a boca enquanto eu fecho o bico.
E estamos conversados.
Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes
30 agosto 2006

Ele consegue. Desafoga o tráfego, acompanha com passos calmos, se renova dentro da sua própria linguagem. Lenine virou ponto turístico do Brasil, patrimônio. Arrisco dizer que ele está para a música para como Carpeaux para a literatura. Num brasil tão carente de arte, ele é dublê da alegria, se acomoda nos cantos, deixa tudo andando no chão. Sorri e agradece. É objetivo na subjetividade da linguagem musical, marca pontos. Sabe pelo envolvimento e pelo coração. Obrigado, meu Caro. Força e luz! Pela contramão, na sua.
"... Alzira virada pra lua, rezando na igreja de São Ninguém, se o mundo for só de mentira, só ela acredita que existe além, que existe outra natureza que vem ocupar o lugar do fim... "
26 agosto 2006

Num universo que caminha para a consumação, as visitas aos amigos se torna algo quase raro. Pessoas saem para encontrar desconhecidos. Conhecer pessoas é bom, obviamente. Mas para alguns, se transformou em algo que podemos comparar com a necessidade que outros tem em consumir medicamentos para enfermidade psicológica. Lastimável. Um sentimento que me faz balançar a cabeça em silêncio. É tão bom receber visitas! Comer pão com azeite, abrir garrafas de vinho, conversar, abraçar, emprestar a melhor toalha, relembrar momentos. E saber que hoje existe diferença grande entre aqueles velhos amigos, é, de certa forma, conhecer uma nova pessoa. Porque não? Agradeço as visitas dos bons e velhos amigos. Vocês são muito importantes.
22 agosto 2006

Felicidade também é algo difícil de lidar. Como diz o Serraria, “já retornei à luz, já visitei as trevas...”. Também já duvidei do Santo Sudário meu Caro, mas também sempre voltei. Atualmente tenho sentido falta das horas, preciso dormir. Felicidade desgraçada, pode ficar! Queria ter mais tempo para canalizar esta alegria incompreensível. Há mais de um mês ando rindo o dia todo. Riso de canto, de ladinho como se faz na cama pela manhã. Desencontro com a atualidade que nos cerceia. Como disse alguém: divino e profano. Como se felicidade fosse uma peça de roupa nova que vesti e não quero tirar da pele. Isso eu ainda não tinha sentido. Juro. Não faço parte de nenhuma religião, mas acredito em coisas alheias à minha vontade. E posso dizer que tem gente boa por aqui. Que a luz fique por aqui e que se faça a divisão com todos os meus. “Toca fumaça pro céu, toca sopapo pr’ogum, pipoca e bala de mel...”
11 agosto 2006

Eu não poderia deixar essa escapar. Tenho de avisá-los. Quem já não escutou o Lobão enxovalhando o Caetano Veloso? Às vezes ele exagera, mas é divertido ouví-lo falar com tanto desapreço no músico e compositor que adora fazer caras e bocas, enquanto canta de pernas cruzadas. Reconheço a importância do Caetano no cenário histórico musical brasileiro, mas para chegar ali, ele pisou em muita gente. E continua pisando. Gente dele! Atualmente ele insiste em se posicionar sobre coisas que ninguém quer saber . E opinia sobre todo e qualquer assunto. Fala como especialista sobre fabricação de sapatos e física quântica. Desimporta-se e esquece-se das opiniões alheias e de que existem pessoas que sabem mais do que ele. E sempre existirão, senhor Caetano... Desista de ser chato. Acho que ele perdeu-se definitivamente. Mas o que eu quero contar é o seguinte: A revista Cult deste mês traz na capa uma foto do bicudinho acompanhada da chamada "Pseudo-intectual de miolo mole." Isso não é uma maravilha?! Meus parabéns aos editores da revista. Acho que muita gente gostaria de poder dizer isso pessoalmente ao mano Caetano. Pena que ele mora longe. Meu respeito a quem ainda curte o Caetano.
02 agosto 2006

Um amigo, num desses dias em que se jogam conversas ao vento, me disse: “nada como um dia após o outro”. Meu pai respondeu: "frase feita". Pode ser, não sei. Mas fiquei pensando naquilo depois do banho quente de ontem, que me lavou até os ossos. Acredito que assim seguem-se todas as coisas. Maomé já foi dessa para outra, Nietzsche certamente se apaixonou um dia por uma mulher, Lars Von Trier, orgulhosíssimo, já deve pensado que seus filme são uma verdadeira bosta, Michelangelo já deve ter desperdiçado mármore e Dostoievski já amassou muito papel. Não importa nada disso. São os ciclos de todas as pessoas. Todas. A gente cansa sim, e tem vontade de dar soco mesmo às vezes. Não dou porque não sou bom de briga, e sei que também minha mão vai doer. Rápido como o sono, no outro dia acorda-se simplesmente feliz, vestindo branco, alegre com o frio e apreciando a chuva e as folhas secas. É minha hora de varrer o chão e passar um pano para tirar o pó do piano que silenciou. Amanhã saio para desencontrar-me das pessoas, porque o encontro marcado é comigo mesmo. Mas, muito em breve ligarei para elas novamente, convidando-as para a casa nova. Móveis novos, árvores diferentes e janelas que ainda me farão olhar para cima. Tem muito céu ainda, muito chão. Aprender coisas com a vida é como desaprender a ler. Não dá para voltar e desistir. Então vamos aprender! Estou aqui. Pode levar-me para outro lugar, pois onde há chão, é meu lugar também. Volto a escrever por aqui assim que a companhia de comunicação local instalar minha linha telefônica. Sorte para todos nós! Sempre.
31 julho 2006

Hoje terei de convencer as paredes do quarto de que existe sim diferença entre o silêncio e um soco. Depois do entendimento controverso, pedirei permissão para adormecer. Quando o bicho pega, melhor tomar uma ducha quente e dormir. E é isso que eu vou fazer. Espero que os argumentos delas não sejam convincentes a ponto de mudar minha opinião sobre isso.
28 julho 2006

Queria sinceramente te fazer entender o porquê que nem tudo nesta vida é como você gosta e quer. O tempo acaba sempre unindo mãos alheias. Mostra, no seu tempo, que as paixões são importantes sim, e que somos a resposta exata daquilo que perguntamos há pouco tempo atrás, como duas mão unidas por uma mesma prece. A vida é assim, por vezes doce, e em outros momentos é preciso esquecer as flores e ter o osso do peito firme, para aguentar tudo sozinho. Chorar não faz mal à ninguém. Aliás, sempre me senti melhor ao chorar que a guardar rancores. Mas isso é experiência minha. Take off your skin and dance around your bones. Você é louca? Já está virando vítima dos mecanismos que criou? Logo você não saberá mais de que lado está. Aposte tudo isso comigo que te mando um belo sorriso com o olho aberto e uma orelha ligada. Não vale a pena ficar a vida inteira travando batalhas rasas, guerras desnecessárias. Um dia vais entender o que eu te falei. Se não, passe lá em casa num fim de tarde que te entrego as lembranças que guardei de ti. Na lareira acesa.

Na volta para casa fiquei pensando em Deus como um executivo obeso, com o olhar grave, que cabe a um deus. Lixeira grandee cheia, pois deve desistir de muitos projetos, ao lado de um piano gigantesco. Coleção completa dos grandes mestres literatos, Todas edições bem encadernadas, café puro, cinzeiro cheio. Deve saber exatamente onde encontrar os melhores vinhos... Potes de mel espalhados, Mas ao fim do dia, deve ter recebido minha prece, agradecendo o papo de ontem e a cedência de um pedido importante. Será que Lê a todos? Falsos colapsos, mágoa pessoal, plásticos, coleções, dor pessoal, física...
26 julho 2006

Espécie de oração particular
Agradeço essa injustiça, essa afronta que me despertou, e cuja sensação viva lançou-me para longe de sua causa ridícula, dando-me também tamanha força e tamanho gosto por meu pensamento que, por fim, meus trabalhos tiveram o benefício de minha cólera; a busca de minhas leis tirou proveito do incidente.
Agradeço essa injustiça, essa afronta que me despertou, e cuja sensação viva lançou-me para longe de sua causa ridícula, dando-me também tamanha força e tamanho gosto por meu pensamento que, por fim, meus trabalhos tiveram o benefício de minha cólera; a busca de minhas leis tirou proveito do incidente.
Paul Valéry
Obrigado, Jkliemann.
Obrigado, Jkliemann.




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