28 setembro 2006


Há saudades no cérebro e por fora.
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?

Tu, mera causa ocasional desta carpidação.
Não tenha escrúpulos morais, receios de inteligência.
(brincando na pessoa de Pessoa)

26 setembro 2006


Estou tentando fazer tudo devagar. Caminhar devagar, respirar, ler, ouvir devagar. Exercício de paciência. Muita gente fode com a minha paciência. Abusam meus caros e caras. Falem mais baixo e menos. Sem paciência para escrever aqui, muito atento à Borges, grande mestre das pequenas fantasias, da Argentina aqui pra casa. Música na cabeça, passos calmos. Meditando ao caminhar. Tom Waits disse: você precisa encontrar um lugar para viver! Posso afirmar, razoavelmente que encontrei. Grazie mille!

13 setembro 2006


Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes réles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho. Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar. Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho. Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana, que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma covardia! Não, são todos o ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos... Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos, na falta de minhas próprias palavras . Por vergonha. Angústia que transbordou do pote. Este estar entre, este quase... isto.

08 setembro 2006


Dois grandes olhos, ouvidos moucos. Eu respondi suas perguntas. Você queria mesmo era ouvir. Ao ouvir minhas respostas, seus olhos me diziam: "Tenho medo de gente e de solidão, tenho medo da vida e medo de morrer, tenho medo de ficar e medo de partir. Tenho medo de correr e medo de cair. Medo de olhar no fundo. Medo de dobrar a esquina. Medo de ficar no escuro. De passar em branco, de cruzar a linha. Medo de se acabar sozinha. De perder a rédea, a pose e o prumo. Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo."
O medo é uma linha que separa o mundo. O medo é uma casa onde ninguém vai. O medo é como um laço que se aperta em nós. O medo é uma força que não nos deixa andar. O medo é uma sombra que o temor não desvia. O medo é uma armadilha que pegou o amor. O medo é uma chave que fez crescer a dor. O sangue que antes era derramado numa paixão, virou tinta vermelha.

07 setembro 2006


Eu não acho mais graça nenhuma nesse ruído constante que fazem as falas das pessoas falando, cochichando e reclamando, o que eles querem mesmo é reclamar, como uma risada na minha orelha, ou como uma abelha, ou qualquer outra coisa pentelha, sobre as vidas alheias, ou como elas são feias, ou como estão cheias de tanto esconderem segredos que todo mundo já sabe, ou se não sabe desconfia. Eu não vou mais ficar ouvindo distraido eles falarem deles e do que eles fariam se fosse com eles e do que eles não fazem de jeito nenhum, como se interessasse a qualquer um. Eles são: As pessoas. As pessoas todas, fora os mudos. Se eles querem falar de mim, de nós, de nós dois, falem longe da minha janela, por favor, se for para falar do meu amor. Eu agora só escuto rádio, vitrola, gravador. Campainha, telefone, secretária eletrônica eu não ouço nunca mais, pelo menos por enquanto. Quem quiser papo comigo tem que calar a boca enquanto eu fecho o bico.
E estamos conversados.
Arnaldo Antunes