Passei parte da minha infância sem sair de casa. Por carecer de amigos - muito porque minha mãe não deixava eles visitarem nossa casa a qualquer dia da semana-, minha irmã e eu inventamos dois companheiros imaginários, chamados, não sei por quê, de O Buda e Metro Quadrado. Quando nos cansamos deles, inventamos que eles tinham morrido de asma. Na época eu usava óculos, e eram como eu, um tanto frágeis. Eles foram quebrados várias vezes por meus amigos nas brincadeiras do colégio. Minha mãe decidiu me trocar de escola. Estudei durante quatro anos numa escola adventista de sétimo dia. Li a bíblia três vezes nestes quatro anos. Era obrigado a cantar no coral da escola, todas as terças e quintas por volta das 11h da manhã. Meu pai era quem preparava o lanche: um sanduíche de queijo e salame italiano, envolto em um paninho vermelho dentro de um saco plástico guardados hermeticamente dentro da mochila. Fui apelidado - justamente - de Sanduba. Vinte anos se passaram. Não uso mais óculos. Desaprendi toda cronologia das escrituras. Mas tenho guardado aquele cheiro do pão.
Penso ser melhor desobedecer à ordem do Chefe da Estação: a busca da compreensão afetiva não deveria atropelar a integridade psicológica dos cuidadores e das pessoas cuidadas.
Não era música, era vida.
Eu vi a lua na cacunda do cometa vi a zabumba e o fole a zabumbá eu vi o raio quando o céu todo corisca e o triângulo engulindo faiscá vi a galáctea branca na galáctea preta eu vi o dia e a noite se encontrá eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha vi a novilha que é filha da novilhá eu vi a réplica da réplica da bíblia na invenção dum cantador de ciençá vi o cordeiro de deus num ovo vazio fiquei com frio te pedi pra me esquentá[Tom Zé e Wisnik]
Muitas vezes o que me salvou foi a improvisação. Improvisação, se tem causas, são desconhecidas. E se tem consequências, são imprevisíveis. Mas quando acontecem coisas que coincidem com os meus sonhos de improvisação para com a vida, fico muito feliz. E pareço estar improvisando certo. Thoreau achava que o medo da improvisação era causa da ruína de nossos momentos presentes, e ainda dizia: "É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber." Acho toda essa coisa forte e isso me enche de coragem. Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto vitalidade nas veias. Acho que a salvação é pelo risco. Assim se pode viver melhor. Tudo pode mudar. Que sentido faz o tempo linear, a que tanto nos preocupamos, nesta situação toda?
Quanto mais quieto eu fico, mais eu posso ver.
A liberdade é a possibilidade do isolamento. Só és livre se puder te afastar dos homens, sem que te obrigue a procurá-los, sem a necessidade do dinheiro, ou a necessidade forçada do amor, ou a glória, e ainda quando a curiosidade no silêncio e na solidão pode te servir também de alimento. Se for impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas de espírito, todas da alma: és escravo nobre, ou um servo inteligente, mas não és livre. Coitado de ti se a opressão da vida, ela própria, te força a ser escravo. Coitado de ti nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim é a tua tragédia, a que trazes contigo. Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde ser superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força. Talvez a morte é uma libertação porque morrer é não precisar dos outros. Por isso a morte enobrece, veste grandes galas desconhecidas ao pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora talvez não o quisesse ser.
Fecho, cansado, tranco a porta, as janelas, excluo o mundo e em um momento tenho liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha me interromper, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos. Na cadeira, onde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Por um momento.
[Livre adaptação de um trecho do Livro do Desassossego]
Um dia ainda vou mostrar como esse pouco ruído interior, que dizem "não é nada", contém tudo; como, organicamente apoiado numa só sensação deformada desde minha origem, um cérebro isolado do mundo pode criar para si um mundo.