20 dezembro 2006


Num dos livros de memórias com que se deliciava em escandalizar os leitores das décadas de 1930 e 1940, Colette conta a história dos catálogos imaginários compilados por seu amigo Paul Masson, ex-magistrado colonial que trabalhava na Biblioteca Nacional, um excêntrico que pôs fim à própria vida às margens do Reno, tapando as narinas com algodão embebido em éter, perdendo a consciência e depois se afogando nas águas de trinta centímetros de profundidade. Segundo Colette, Masson visitava-a em sua casa à beira-mar e tirava do bolso uma prancheta, uma caneta-tinteiro e um pacotinho de cartões em branco. Um dia ela lhe perguntou:
"O que está fazendo, Paul?"
"Trabalho, coisas do trabalho. Fui nomeado para a seção de catalogação da Biblioteca Nacional, e estou fazendo um levantamento dos títulos."
"E você consegue fazer isso de memória?", ela se admirou.
"De memória? Mas qual seria o mérito? Faço melhor. Constatei que a Nacional é pobre em obras latinas e italianas do século XV. Enquanto o ocaso e a erudição não preenchem as lacunas, eu inscrevo títulos de obras extremamente interessantes, que deveriam ter sido escritas... Assim, ao menos os títulos salvarão o prestígio do catálogo."
"Mas como se os títulos não existem?"
"Ah", disse ele, com um gesto frívolo, "não posso fazer tudo!"

18 dezembro 2006


"Vou caminhar entre os mortos, tenho de falar baixo. No que me diz respeito, alguns entre os mortos para mim morreram, outros vivem em meus gestos, no formato da minha cabeça, no modo como eu fumo, namoro, e em como às vezes pareço comer certos alimentos a mando deles."
Trecho do livro Confissões de um Burguês, do húngaro Sándor Márai.

12 dezembro 2006


Nas lembranças de cada homem há coisas que ele não revelará para todos, mas apenas para seus amigos. Há outras coisas que ele não revelará mesmo para seus amigos, mas apenas para si próprio, e ainda somente com a promessa de manter segredo. Finalmente, há algumas coisas que um homem teme revelar até para si mesmo, e qualquer homem honesto acumula um número bem considerável de tais coisas. Acho que pode-se dizer, quanto mais respeitável é um homem, mais dessas coisas ele tem.
Chambers, Sándor Márai

11 dezembro 2006


Com uma câmera na mão pode-se dar razão a diversos objetos.

07 dezembro 2006


Schopenhauer fez uso da concepção kantiana do problema estético. Kant imaginava prestar honras à arte, ao dar preferência ao belo, àqueles que constituem a honra do conhecimento: impessoalidade e universalidade. Esse não é o lugar de discutir erros. Talvez seja desnecessário discutir qualquer coisa. A profusão da arte, dilaceração em tom maior, enterrado onde todos os sentimentos que cerceiam os recantos desconhecidos da alma humana está confirmado em língua portuguesa: Irmãos Karamazov já está traduzido diretamente do russo, e será lançado no segundo semestre do ano que vem.

05 dezembro 2006


Spuzzo: quer que eu dance um pouquinho?