17 abril 2007
14 abril 2007

O romance não nos dá as coisas, mas seus signos. Com esses meros signos, as palavras, que apontam no vazio, como produzir um mundo que se sustente? Como é possível que Stavróguin viva? Seria engano crer que ele tira sua vida de minha imaginação: as palavras geram imagens quando meditamos sobre elas, mas quando leio eu não medito: decifro. Não, não imagino stavróguin: espero por ele, por seus atos, pelo fim de sua aventura. Essa matéria espessa que manipulo quando leio Os Demônios é a minha própria espera, é o meu tempo. Pois um livro não é nada além de um pequeno monte de folhas secas, ou então uma grande forma em movimento: a leitura. Esse movimento, o romancista capta, guia, desvia, faz dele a substância de seus personagens; um romance, seqüência de leituras, de pequenas vidas parasitárias que não duram cada qual mais que uma dança, incha-se, nutre-se com o tempo de seus leitores. Mas para que a duração de minhas impaciências e minhas ingnorâncias se deixe finalmente apanhar, modelar e apresentar a mim na carne dessas criaturas inventadas é preciso que o romancista saiba atraí-la para a sua armadilha; é preciso que esboce, por meio desses signos de que ele dispõe um tempo igual ao meu, em que o futuro não está pronto.
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